SONETO ALFANUMÉRICO

Erthos Albino de Souza · revista Código nº 1 · Salvador, 1974

Em 1974, um engenheiro de minas da Petrobras transformou um soneto de Mallarmé numa sequência de símbolos datilografados, usando Fortran e PL/1 como instrumento poético. Recuperamos a tabela que ele usou — e descobrimos por que, entre tantos poemas possíveis, ele escolheu justo este.

O artefato

Página original do Soneto Alfanumérico, revista Código nº1, 1974
Scan da página publicada em Código nº1 (1974) — impressão matricial de computador sobre papel pautado. Clique para ver em tamanho real.

Quem foi Erthos

Erthos Albino de Souza (1932–2000) foi um engenheiro de minas baiano que trabalhou na Petrobras e, em paralelo, se tornou um dos pioneiros internacionais da poesia feita com computador. A partir do fim dos anos 1960, influenciado pelos experimentos de Pedro Xisto no Canadá, passou a usar Fortran e PL/1 — linguagens de cálculo numérico de grandes empresas — como instrumento poético, submetendo texto verbal a processos de computação e combinatória.

Fundou e financiou sozinho a revista Código, publicada em Salvador entre 1974 e 1990 (12 números), um dos principais veículos da poesia experimental brasileira na esteira de Noigandres e Invenção, com colaborações de Augusto de Campos e Décio Pignatari. Antonio Risério descreveu o Soneto Alfanumérico como um texto em que letras e dígitos se combinam "em base permutatória" dentro da forma clássica do soneto.

O poema por trás: o cisne que é signo

O soneto-fonte é "Le vierge, le vivace et le bel aujourd'hui" (1885), de Stéphane Mallarmé — às vezes chamado simplesmente de "Le Cygne" pela crítica. Ele descreve um cisne preso num lago congelado: quer se libertar com um bater de asas, mas as penas estão presas na geleira transparente. O motivo da prisão é revelado no poema — ele não cantou a tempo "a região onde viver". No fim, resta apenas um fantasma imóvel, vestido pelo "exílio inútil".

Le vierge, le vivace et le bel aujourd'hui O virgem, o vivaz e o belo hoje

Va-t-il nous déchirer avec un coup d'aile ivre Virá nos rasgar com um golpe de asa ébria

Ce lac dur oublié que hante sous le givre Este lago duro e esquecido que ronda sob a geada

Le transparent glacier des vols qui n'ont pas fui! O transparente glaciar dos voos que não fugiram!

Un cygne d'autrefois se souvient que c'est lui Um cisne de outrora se lembra que é ele

Magnifique mais qui sans espoir se délivre Magnífico, mas que sem esperança se liberta

Pour n'avoir pas chanté la région où vivre Por não ter cantado a região onde viver

Quand du stérile hiver a resplendi l'ennui. Quando do estéril inverno resplandeceu o tédio.

Tout son col secouera cette blanche agonie Todo o seu colo sacudirá essa branca agonia

Par l'espace infligée à l'oiseau qui le nie, Infligida pelo espaço ao pássaro que o nega,

Mais non l'horreur du sol où le plumage est pris. Mas não o horror do solo onde a plumagem está presa.

Fantôme qu'à ce lieu son pur éclat assigne, Fantasma que a este lugar seu puro brilho designa,

Il s'immobilise au songe froid de mépris Ele se imobiliza no sonho frio do desprezo

Que vêt parmi l'exil inutile le Cygne. Que veste, em meio ao exílio inútil, o Cigno.

Stéphane Mallarmé, "Le vierge, le vivace et le bel aujourd'hui" (1885) — original em itálico à esquerda, tradução livre ao lado. No último verso, "Cigno" é desvio intencional de "Cisne" — aproximação sonora de "Signo", ecoando o trocadilho cygne/signe discutido abaixo.

cygne

cisne — o pássaro preso no gelo, incapaz de voar, símbolo tradicional do poeta tomado por paralisia criativa.

signe

signo — homófono perfeito de cygne em francês. O poema sobre um cisne é, ao mesmo tempo, um poema sobre a própria natureza do signo linguístico, preso entre o que quer dizer e o que consegue dizer.

Esse trocadilho — cygne/signe — é apontado pela crítica mallarmeana como central ao soneto, não acidental (ver fontes ao final). É provavelmente por isso que Erthos escolheu justo este poema: um texto já obcecado pela ideia de linguagem-presa-em-signo era o candidato perfeito para virar, literalmente, uma sequência de signos alfanuméricos. A "geleira transparente" do poema original ganha um equivalente real — a tabela de substituição que aprisiona cada letra num símbolo fixo.

Lado a lado

Mallarmé (1885)Soneto Alfanumérico (1974)

Como deciframos

  1. Nada de OCR. Os caracteres especiais de impressora matricial de 1974 (¢ ¬ & | ) são sistematicamente confundidos por OCR genérico. Recortamos e ampliamos cada uma das 14 linhas à mão.
  2. Hipótese: substituição, não permutação. Comparando a primeira linha com o início de Mallarmé, a ordem das palavras não muda — só a aparência de cada caractere. Isso aponta para uma cifra de substituição monoalfabética, não para um embaralhamento da ordem.
  3. Alinhamento verso a verso. Cada uma das 14 linhas foi comparada palavra por palavra com o soneto de Mallarmé (normalizado: sem acento, sem distinção de caixa), anotando o símbolo correspondente a cada letra — e usando as repetições de letras como teste de consistência da tabela.
  4. Verificação algorítmica. A tabela resultante foi implementada em Ruby e testada automaticamente contra a transcrição da página inteira.

A tabela de substituição

Acentos são removidos antes da substituição; maiúscula e minúscula usam o mesmo símbolo. Vírgula, ponto, apóstrofo e hífen atravessam a cifra sem mudar. k, w e z não ocorrem no soneto de Mallarmé, então não têm símbolo atestado.

Resultado

$ ruby soneto_alfanumerico.rb
 1  100.0%  Le vierge, le vivace et le bel aujourd'hui
 2  100.0%  Va-t-il nous déchirer avec un coup d'aile ivre
 ...
14   97.0%  Que vêt parmi l'exil inutile le Cygne.
TOTAL: 509/512 caracteres coincidem (99.4%)

Os três caracteres que não fecham

A tabela vale sem exceção nas 14 linhas — a transcrição é diplomática e reproduz a página de 1974 como ela está. Os 3 caracteres que não fecham são de duas naturezas diferentes, e vale não somá-los: dois são divergências do impresso em relação a Mallarmé (versos 10 e 14), e o terceiro não é divergência de ninguém — é o alfabeto de 23 símbolos batendo no teto (verso 4). A contagem honesta é de duas divergências, não três; e nenhuma das duas é comprovadamente “erro”.

v.Mallarméa cifra pedea página imprimeo que a página diz
4 fui! ;12! ;12 o ! não é impresso — não é lapso, é limite do alfabeto: o glifo ! já está ocupado pela letra b
10 Par l'espace &A¢ &A> Pas l'espace” — > vale s, ¢ vale r
14 parmi l'exil &A¢72 &A¢72- parmit” — um - a mais, e - vale t

O que as duas variantes dizem

As duas divergências do impresso — versos 10 e 14 — não são equivalentes entre si, e a diferença entre elas é o dado mais interessante que sobra.

O verso 10 produz palavra francesa real. pas é a partícula de negação, e em uso elíptico, sem o ne, é corrente (“Pas de problème”, “Pas moi”). A linha lê “não o espaço” — não “sem o espaço”, que seria sans l'espace: é negação de identificação, não de privação. Só que ela desmonta a arquitetura do terceto. Em Mallarmé a agonia é infligida pelo espaço (par l'espace) e não pelo horror do solo (mais non l'horreur du sol, v. 11); negar os dois lados colapsa a antítese sobre a qual os três versos estão construídos. E infligée, feminino concordando com agonie do verso 9, tem em par l'espace o seu agente — sem o par, o particípio fica sem agente e a sintaxe desanda.

O verso 14 produz não-palavra. parmit não existe em francês. Nem se trata de permit: este cifra como &)¢72-, a um único glifo do impresso — mas o glifo em questão é o da vogal, e nós o lemos: é A (letra a), não ) (letra e). Além disso permit é passé simple de permettre, “permitiu”, não “permite” (que seria permet = &)¢7)-, a dois glifos), e “Que vêt permit l'exil” poria dois verbos finitos em sequência. parmi é peça estrutural: o que do verso 14 retoma o songe froid de mépris do verso 13 como objeto, le Cygne é o sujeito posposto de vêt, e é parmi l'exil inutile que se interpõe entre verbo e sujeito, sustentando a inversão. Removida a preposição, nenhuma palavra vizinha salva a linha.

Daí a assimetria: o verso 10 tem cara de acidente linguístico — alguém transcreveu Mallarmé errado, num ponto onde a negação é semanticamente carregada. O verso 14 tem cara de acidente mecânico — coluna repetida na perfuração, do mesmo tipo que produz =A---26 para “va-t-il”. Dois desvios com causas de natureza diferente, o que, sem provar nada, pesa contra a hipótese de um desenho único e deliberado: quem quisesse marcar o poema com duas variantes escolheria duas que funcionassem, e “parmit” não funciona em leitura alguma.

Nenhuma das duas divergências é ambiguidade de leitura do scan. No verso 10, o ¢ desta impressora é um “c” cortado por barra e o > é um chevron: correlação de template do glifo contra glifos conhecidos da mesma página dá 0,69 para > e 0,18 para ¢. No verso 14, o traço correlaciona 0,925 com o - legítimo da mesma linha, com a mesma largura e densidade de tinta — é glifo, não mancha. E - é o único glifo ambíguo da tabela inteira (serve a t e ao hífen literal de “Va-t-il”), então o caractere que sobra admite duas leituras: “parmit”, que não é palavra francesa, ou “parmi-”, com hífen suspenso. Lapso ou intenção, o impresso não permite decidir — detalhes em DECIFRACAO.md, seção 3.5.

O que isto é — e o que não é

Isto é uma reconstrução da camada de substituição, obtida por engenharia reversa a partir da página publicada — não uma recuperação do programa Fortran/PL-1 original de Erthos, que não sobreviveu (ao menos não nas fontes que encontramos). Continuamos sem saber como Erthos chegou a essa tabela específica de 23 símbolos. Para imaginar como ele poderia ter sido, escrevemos um exercício hipotético em Fortran IV, no estilo da época, que aplica a tabela recuperada; é nosso, não dele.

Também não encontramos, nas fontes disponíveis, nenhuma reconstrução publicada anteriormente dessa transformação em código executável — pelo que conseguimos apurar, este é o primeiro decodificador funcional do Soneto Alfanumérico a circular publicamente. Ficamos felizes em ser corrigidos se isso não for exato.

Talvez tenhamos extrapolado esses acidentes encontrados, e tudo tenha partido apenas de uma má cópia do original. Mas, por acidente, isso cria um sentido ainda mais poético para esse cisne/signo, eternamente preso ao espaço entre o que quer dizer e o que diz.

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Erthos Albino de Souza
Erthos Albino de Souza (1932–2000)